Cobrir o santo e não tomar banho: rituais da Semana Santa no Cariri

Foto: Edson Freitas

Nesta sexta-feira dona Francisca vai dispensar o chuveiro. Aos 94 anos, com uma memória de fazer inveja a gente jovem, a aposentada segue tradições da Semana Santa.

Além de não tomar banho, dona Francisca também faz jejum e em dois dias seguidos: na quinta e na sexta, só almoça e come pouco. “Jesus não comeu nada. A gente tem que sentir e pensar: ele sofreu tudo isso. Como é que nós não vamos ter pena dele?”, questiona.

Dona Francisca mora no Horto, o bairro íngreme de Juazeiro do Norte que tem no topo a estátua do Padre Cícero. Algumas vizinhas dela tomam banho e comem, mas mantêm outro ritual: usar lençóis para cobrir as imagens dos santos que ficam expostos em quadros pendurados e também sobre mesas encostadas na parede da sala, a chamada mesa do santo. “A gente cobre porque é uma tradição, uma forma de respeito com a Semana Santa”, afirma dona Isabel Maciel dos Santos, de 50 anos.

Cícero José, padre que é reitor da Basília de Nossa Senhora das Dores, explica que, desde o sábado, os católicos são orientados a cobrir as imagens dos santos. “Para centrarmos a atenção no mistério daquilo que nós celebramos: a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo.”

Há dois anos o ritual estava suspenso por causa da pandemia. São cerca de 2,5km a pé, algumas pessoas descalças, enfrentando o relevo e o calçamento de pedra, até chegar à estátua. No trajeto, param em frente a imagens que representam a Via Sacra. Há também a pedra mística onde peregrinos apoiam o joelho para pedir saúde.

É imperativo dizer que a maior parte dos rituais que são seguidos por moradores do município e também por visitantes não vem de nenhuma orientação do clero. Pelo contrário, alguns são criados pelos próprios fiéis e, aos poucos, vão sendo aceitos pela Igreja Católica, uma forma de aproximação.

É o que afirmam estudiosos como a doutora em Sociologia Renata Marinho Paz. “Historicamente o romeiro vem sacralizando seus espaços, criando e recriando a sua Juazeiro Celeste”, escreve a antropóloga na tese “Para onde sopra o vento”, uma análise de como a Igreja Católica foi, nos últimos anos, institucionalizando o catolicismo popular de Juazeiro do Norte como forma de lutar contra a expansão das igrejas evangélicas neopentecostais.

Diário do Nordeste

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